Brasil não faz testes surpresa desde julho

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Exames antidoping. O Brasil não realiza testes surpresa desde julho de 2016, antes mesmo dos Jogos Olímpicos Foto: RICARDO MORAES / RICARDO MORAES/Reuters

Na contramão do pente fino que a Agência Mundial Antidoping (Wada) tem aplicado ao revisar amostras das Olimpíadas de Pequim-2008 e Londres-2012, o controle no Brasil não só está parado desde 20 de novembro, por causa do descredenciamento da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), como deixou de ser feito, de forma eficaz, antes mesmo dos Jogos Olímpicos do Rio.

Segundo oficiais de coleta, eles não foram chamados para trabalho fora de competição entre julho e novembro. A informação é, em parte, confirmada por Alexandre Velly Nunes, diretor de operações da ABCD, ao confessar que, na ocasião, não tinha “instrumento legal” para pagar esses profissionais. Às vésperas do Rio-2016, oficiais de coleta denunciaram a falta de pagamento, mas somente agora a ABCD confirmou a dificuldade para testar atletas brasileiros de forma adequada às vésperas do evento.

— Passou do controle marasmo ao nulo (desde novembro) — critica o português Luis Horta, que trabalhou na ABCD entre setembro de 2014 e junho de 2016 e que, à época dos Jogos, acusou o Ministério do Esporte e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) de “sufocarem” o controle no país, fato desmentido por ambas instituições. — O que teve foi irrisório. E sabemos que os exames surpresa são os mais eficazes e usuais em âmbito internacional.

Um oficial de coleta que pediu anonimato assegura que a ABCD não faz teste surpresa desde julho. Explica que todos os oficiais formados pela ABCD, cerca de 130, recebem aviso de missão, e o escolhido é aquele que responde ao pedido mais rápido (mesmo com pré-seleção por localização, todos recebem o aviso):

— Não fizeram mais nada. Alguns testes foram planejados, mas não executados.

Conforme os últimos dados divulgados pela ABCD, em julho, véspera da Rio-2016, a entidade fez dois exames surpresa. Em agosto e setembro, nenhum. Em outubro, oito, e em novembro, até o dia 20, três. Entre 24 de julho, quando a vila olímpica foi aberta (exames à cargo do Comitê Olímpico Internacional), até 21 de agosto (cerimônia de encerramento dos Jogos), a ABCD não poderia aplicar exame (teve 23 dias em julho, por exemplo, para este trabalho). Entre 31 de agosto e 18 de setembro, durante a Paralimpíada, idem.

Nunes, diretor de operações da ABCD desde o início de outubro, não desmente as acusações. A entidade errou ao divulgar, a pedido do GLOBO, o balanço dos controles no ano olímpico. A entidade demorou exatos 44 dias para enviá-los (controle mensal). No meio do caminho, encaminhou dados incorretos. O novo relatório aponta 2278 exames, sendo 49 positivos. Anteriormente, divulgou 2091 controles.

— Admito que houve confusão, por isso refazemos — disse Nunes. — Desde que cheguei até novembro, não tinha instrumento legal para pagar os oficiais. Não fiz porque não pude.

Enquanto isso, o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD) só vê o buraco aumentar. Segundo o diretor Francisco Radler, mesmo com a demanda da ABCD, o LBCD não se bancaria. Para zerar os custos, seria necessário a análise de 16 mil amostras (R$ 940 por amostra de urina, com análise de 600 substâncias por 4 métodos diferentes). E a previsão era de 6 mil/ano.

— O LBCD tem dificuldade de se manter mesmo com as análises, pois o preço cobrado não cobre os custos meramente operacionais. É preciso ter recurso do Governo Federal. É claro que, sem receber amostras, o aporte é maior — afirma Radler, que conta que 40% dos equipamentos excedentes serão doados a instituições de ensino e pesquisa, algo previsto anteriormente. — Como a ABCD, nosso segundo maior cliente em potencial (o primeiro é a CBF), não pode coletar amostras, isso é grave.

CONFLITO DE INTERESSE

Uma resolução que trata do credenciamento de empresas nacionais de coleta de materiais biológicos está em tramitação no Ministério do Esporte. E Nunes explica que a ABCD não tem como arcar com todos os custos dos exames no país, incluindo os do futebol (por lei, teriam de ser repassados à ABCD). Assim, se uma entidade quiser controlar seus atletas em outros torneios além dos cobertos pela entidade, poderá fazê-lo contratando uma empresa credenciada que seguirá normas estabelecidas pelo Conselho Nacional do Esporte. Uma delas pode vir a ser a No Doping, que pertence a filhos do dirigente:

— A ABCD não trabalhará com nenhuma empresa e, por isso, não vejo conflito de interesse (no caso da No Doping). Serão as confederações ou organizadores de eventos. E esse serviço pode ser terceirizado por empresas aptas, segundo a lei. Podem bater no que quiserem.

Nunes afirma que “está arrumando a casa” enquanto não pode ir a campo. Uma comitiva da ABCD visita as confederações para a assinatura do Plano Anual de Controle de Dopagem, no qual as entidades ficarão responsáveis por arcar com o pagamento dos agentes de controle de dopagem credenciados. Já a ABCD pagará as despesas de laboratório, materiais, equipamentos e transporte de amostras.

Assim, as confederações saberão de antemão quais as competições serão cobertas pela ABCD e quais não serão. Com isso, corre-se o risco dos atletas descobrirem quais eventos poderão ser testados e em que datas isso ocorrerá. Nunes acredita que não há problema:

— Uma cultura antidoping começa com educação e a consciência de que em qualquer evento pode ocorrer controle. A ideia de que as confederações são ‘inimigas’ nesse processo é equivocada. Não é a nossa tese. Além disso, continuamos com a liberrdade de fazer controle onde e quando quisermos. A seleção dos eventos em parceria com as confederações garante que as principais competições, classificatórias para os eventos internacionais, terão controle. E os atletas não podem se esquivar destes eventos.

Calibração de Vidrarias

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